Desospitalização. Eis um termo que as pessoas irão ouvir cada vez mais nos próximos anos. Na prática, é a redução do tempo de internação no hospital. Essa é uma tendência mundial e já foi tema de estudo até mesmo de um dos grandes teóricos dos negócios, o americano Clayton Christensen. Professor da Universidade de Harvard, Christensen se debruça em maneiras de aplicar os conceitos de negócios a outras áreas, como a de saúde.
O especialista afirma que a desospitalização é uma forma de tornar os hospitais mais eficientes para as pessoas. Como? Os leitos hospitalares são limitados diante do aumento de pacientes com problemas agudos e crônicos, que estão sobrevivendo cada vez mais por conta do avanço tecnológico da medicina – e isso é uma boa notícia. Um tempo de internação longo, no entanto, tem um impacto alto para o sistema de saúde: impede a ocupação de leitos por novos pacientes e congestiona o pronto atendimento, entre outras dificuldades.
O objetivo da desospitalização, claro, não é dar alta ao paciente precocemente. É fornecer todo o suporte para que o tratamento tenha continuidade em casa por meio de iniciativas como o home care, por exemplo. Além da redução do risco de infecção hospitalar, o paciente fica mais próximo de amigos e parentes. A desospitalização promove, ainda, a redução da falta de leitos disponíveis nos serviços de saúde.
O resultado é sempre muito positivo. Alguns hospitais nos Estados Unidos liberam o paciente em um tempo menor em comparação com outras instituições de saúde ou ao que é usualmente praticado e, mesmo sem o suporte do home care, os riscos e as complicações não são maiores do que os registrados por hospitais que mantêm a pessoa mais dias internada.
No Brasil, diversas alternativas são oferecidas aos pacientes e suas famílias para reduzir o tempo de internação, entre as quais, hospitais específicos para tratar pacientes com problemas crônicos; o já conhecido sistema de home care no qual toda a estrutura hospitalar é montada em casa e a pessoa é acompanhada por uma equipe multiprofissional; centros de reabilitação que dão total suporte para quem necessita de um apoio de fisioterapia intensa; instituições de longa permanência para idosos, etc.
Passo a passo
Os grandes hospitais mantêm, atualmente, um serviço permanente de detecção dos pacientes que estão internados, mas clinicamente estáveis. Essas informações são obtidas em uma espécie de censo diário. O hospital, então, entra em contato com os médicos responsáveis por esses pacientes e se a desospitalização for um caminho viável e seguro, abre-se uma conversa com a família e o paciente sobre essa possibilidade de tratamento longe do hospital. Quando a ideia é bem aceita por todos – e existe estrutura domiciliar para isso –, avalia-se qual a melhor alternativa. Apenas depois que toda a estrutura estiver pronta (casa preparada com uma equipe de suporte de atendimento domiciliar, por exemplo) a alta é programada. Ou seja, tudo é feito de maneira responsável para evitar uma nova internação.
A desospitalização é uma das formas de humanizar a recuperação do paciente.
Em geral, a alternativa de se recuperar em casa é muito bem aceita. Costuma-se dizer, aliás, que ela é proporcional ao grau de suporte e estrutura social e familiar do paciente. Se o vínculo com os parentes é forte, se existem carinho e afeto nessa relação, dar continuidade ao tratamento em casa é algo que agrada – e muito – ao paciente. Rodeado por pessoas queridas, em um ambiente familiar, sua evolução pode ser, inclusive, mais rápida.
Opção segura
Feita com responsabilidade, a desospitalização é muito segura. Isso se verifica no caso da artroplastia de quadril, por exemplo, que vem contabilizando ótimos resultados quando a recuperação é feita em casa. Nesses casos, os principais benefícios são a redução do risco de infecção após a cirurgia e a adequação do processo de reabilitação, que até pouco tempo era feito exclusivamente no hospital. Além disso, para esse tipo de paciente o retorno para casa significa adequar a reabilitação à sua realidade, o que traz mais confiança para que ele retome suas atividades cotidianas num tempo mais curto – quando comparada a reabilitação feita durante a internação hospitalar. Além disso, um grande benefício para quem passou por uma cirurgia ortopédica é estar próximo da família, principalmente no processo inicial da reabilitação, que costuma ser duro, intenso e prolongado. Dessa forma, as pessoas de sua convivência poderão apoiar as conquistas e ajudar nas dificuldades dessa fase. E, até mesmo, aprender a lidar com a condição do paciente.
Na artroplastia de quadril é necessário, literalmente, reaprender a andar com a prótese. Mesmo assim, na prática, o que se percebe é que em casa o paciente se recupera mais rápido e com maior autoconfiança – retoma suas atividades diárias longe do hospital – como tomar banho ou vestir-se sozinho – com uma equipe médica próxima e perto daqueles que ama.
Outros problemas ortopédicos podem se favorecer com essa modalidade de tratamento, como a artroplastia de joelho e a reconstrução de ligamento cruzado anterior do joelho. A desospitalização neste caso é indicada para quem passou por uma cirurgia eletiva (marcada com antecedência e não ocasionada por fratura). Muitas vezes, antes mesmo da cirurgia, o médico já prepara a família e o paciente para a reabilitação e recuperação longe do hospital – o que acontece quando a cirurgia não tem imprevistos.
Texto adaptado de einstein.br